quarta-feira, 13 de julho de 2016

A Conquista de Tawantinsuyo, O Gigantesco Império Inca

Os incas construíram seu império através da guerra, a estrutura militar desta civilização é que permitiu o expansionismo em larga escala e para alcançar este grande poder bélico eles investiram fortemente no “exército” inca.
Os soldados eram guerreiros treinados e bem equipados, historiadores afirmam que o exército inca era o que detinha o maior poder bélico das civilizações pré-colombianas (Longhena,1999). Estes guerreiros possuíam um poderoso arsenal, machados, maças, dardos e escudos, para longas distancias utilizavam a Huaraca, uma funda, pois desprezavam o arco e flecha, acreditavam que ele era uma arma de selvagens da Amazônia.
Existiam também os soldados da reserva que eram simples trabalhadores convocados quando acontecia grandes guerras, mas isto gerava problemas para a economia Inca, pois como não possuíam treinamento o numero de mortos era grande e logo a produção entrava em crise. Por este motivo o exército permanente tinha que conseguir enfrentar a maior parte dos combates sozinho.
Uma demonstração desta habilidade guerreira dos Incas foi à arma que inventaram quando perceberam que os cavalos espanhóis estavam dando a vitória ao homem branco, eles produziram boleadeiras, três pedras atadas entre si com tendões de lhama, elas eram arremessadas nas patas dos cavalos e os derrubava para que os Incas atacassem.
Porém acima do treinamento bélico estava o treinamento para se tornar um imperador, o papel mais importante no império inca era ser o filho do sol, por este motivo as crianças que estavam sujeitas a ocupar esta posição tinham que passar por um grande treinamento e apenas aquele que se destacasse mostrando ter diversas habilidades assumia o trono.
O Império inca não levava em consideração apenas a questão do primogênito na hora de escolher o novo imperador, eles avaliavam todo o desenvolvimento dos filhos que o imperador possuía para decidir quem deveria se tornar o novo regente. O imperador devia sempre se casar com sua irmã para seguir a tradição de Manco Capac e manter o sangue da família real puro, mas mesmo possuindo este sangue era necessário se mostrar inteligente, bravo e digno de ocupar a função.
Desde muito pequeno os jovens passavam por uma quantidade gigantesca de treinamentos que envolviam coisas simples e outras consideradas muito ousadas para nossa cultura. Os garotos estudavam a História Inca, aprendiam a escrever no quipu, geometria, astronomia e um intenso treinamento militar. O treinamento procurava medir a bravura dos candidatos então era muito comum a realização de provas onde se testava a capacidade de resistir ao sono, os garotos ficavam até três dias sem dormir, também existiam treinamentos de controle corporal onde era proibido se mexer durante uma grande quantidade de horas.
Outra prática curiosa era o teste de valentia, os candidatos eram ameaçados com lanças e tinham que ficar no local sem se mover, mesmo com elas bem próximas aos olhos deles ou então tinham que resistir sem gritar a ferimentos com bastões.  Também existiam atividades mais comuns como o famoso rouba bandeira, no mundo Inca essa brincadeira era praticada de forma seria para que os alunos aprendessem a conquistar o território vizinho ou se proteger de invasores, era muito comum saírem deste jogo com graves ferimentos de batalha.
Após todo este treinamento os sacerdotes escolhiam aqueles que eram mais valentes para serem candidatos ao trono do imperador e a opinião do atual filho do sol contava na decisão, mais não era um fator dominante. Por este motivo sempre que um imperador morria o mundo Inca entrava em caos e até que o novo sucessor assumisse o poder aconteciam muitas guerras internas.
Quando os jovens terminavam o treinamento eles eram consagrados guerreiros e participavam de um ritual que envolvia uma perfuração, com uma agulha de ouro eles tinham as orelhas perfuradas e inseriam pequenas peças de ouro no orifício que iam aumentando de acordo com o prestigio social, está pratica deu aos sacerdotes incas o apelido de “Orejones” (orelhudos) durante a conquista e marca a presença de alargadores na América.
Tudo isto nos mostra como a sociedade Inca era organizada e possuía grande critério para escolher seus líderes, não é à toa que os imperadores eram capazes de administrar um grandioso império que conquistou quase toda a América do sul, só que todas essas armas exércitos e treinamentos não foram suficientemente fortes para impedir a conquista espanhola, podemos acreditar que apenas a arma de fogo foi um fator decisivo para a conquista? Ou será que o contexto histórico é mais amplo que isso, com certeza um general é uma peça chave para solucionar esse mistério.
Conhecido por muitos como aquele que “descobriu” o Peru e levou a civilização aos povos bárbaros, ou odiado por todos que apreciavam a civilização inca e a viram ser destruída a mando deste homem, Francisco Pizarro, um herói desbravador e um tirano nefasto, Filho bastardo de uma mãe prostituta, abandonado nas escadarias da igreja de Trujillo, em Esttremadura, teria sido alimentado com leite de uma porca. Seu pai, Fidalgo de velha estripe e capitão dos tercios, teria aceitado reconhecê-lo. Ele o obrigou a cuidar dos porcos antes de mandá-lo aprender o oficio das armas na Itália, para que depois de formado fosse enviado para o novo mundo junto com outros grupos de homens semianalfabetos e com histórias semelhantes, desesperados por gloria e em busca de riquezas colonizassem a América.
É assim que os pesquisadores descrevem a trajetória do grande Pizarro que desbravou a floresta e encontrou os Incas, uma triste realidade e um passado cheio de magoas que Pizarro deixou para traz e ao pisar no novo mundo vez o que pode para honrar seu nome. Até que em novembro de 1524 seguindo relatos dos nativos dos Andes, em busca de “Pirú” uma terra repleta de ouro, encontrou um “Puerto de La Hambre” (porto da fome), onde após travar combates com os índios não achou riqueza nenhuma.
Após este fracasso teve que negociar com a coroa espanhola sua permanência e financiamento de novas explorações, depois de muito custo conseguindo uma nova oportunidade teve ainda de convencer seus homens de acompanhá-lo, com as seguintes palavras “Companheiros! De um lado desta linha estão a morte, as lutas, a fome, as privações e as tempestades, mas também o caminho que leva ao Pirú e suas riquezas. De um outro lado a facilidade, mas também o caminho do Panamá e da pobreza. Escolham bons homens de Castilha!” (CLAUDE,1976) , para o azar dos Incas eles escolheram ir com Pizarro em busca do Pirú.
Após uma longa viagem estes exploradores chegaram ao porto de Tumbez e fizeram contato com o povo inca, na chamada Terra de Pirú, e em uma segunda investida descobrem as riquezas da região, então iniciaram uma trama para conseguir se comunicar com os governantes e conseguir conquistar o local através de alianças, já que estavam em menor número.
Logo os boatos se espalharam e profecias eram ditas pelos sacerdotes “homens brancos barbados senhores do relâmpago, montados em animais com patas de prata vindos das águas onde Viracocha desapareceu” uma descrição fidedigna das lendas incas à época da chegada de Pizarro e suas tropas. Segundo o relato dos mais antigos anciãos o maior dos presságios ocorrera na festa do Sol, um ritual que é praticado anualmente pelos incas, de acordo com os relatos um condor foi abatido por um grupo de falcões no meio da Praça de Cuzco, o que revelava a queda do império tendo em vista que o Condor era uma ave símbolo dos Incas. Após isto a lua surgiu ao céu, mas de uma forma estranha ela estava como eles descreviam em “Halo triplo, o primeiro cor de sangue, o segundo um preto-esverdeado e o terceiro parecido com uma fumaça” os sacerdotes leram então que haveria um grande derramamento de sangue e o império iria se acabar.
Após todos estes sinais o Huayna Capac ficou terrivelmente doente e faleceu, deixando o Império para seus filhos que disputariam o poder, antes de morrer cronistas diziam que suas últimas palavras foram “Nosso pai, o sol, revelou-me que após o reinado dos doze incas, seus filhos, aparecera nesse país uma espécie de homens que nos são desconhecidos e que devem dominar nossos Estados. Eles pertencem sem dúvida ao povo daqueles que vieram outrora do mar... Estejam certos que estes estrangeiros chegaram a este país e cumpriram a profecia!”.
Pizzarro retornou para a Espanha em busca de verbas, ele possuía a intenção de conseguir apoio para poder realmente desbravar aquelas terras desconhecidas, por isto deixou alguns homens no porto de Tumbez e foi para sua pátria buscar reforços.
Sua chegada foi vista por muitos como o retorno de um herói, trazia consigo amostras da terra recém descoberta Lhamas, cerâmicas, taças de metal e tecidos finos para seduzir as damas. Após um longo período de permanência e tentativas frustradas de obter aprovação do rei para subsidiar a nova expedição, Pizarro teve que esperar e só conseguiu capital para retornar ao Pirú pelas mãos da rainha enquanto o rei estava viajando a negócios, confirmando que os presentes que trouxera não foram em vão, rapidamente ajuntou tudo o que precisava para a viagem e levou consigo seus irmãos e outros aventureiros para conquistarem de vez a nova terra.
Depois de uma longa viagem chegaram ao solo andino em setembro de 1532, porém este já não era mais tão amigável como da última vez, uma guerra civil causada pela briga ao trono tinha destruído grande parte do mundo Inca, dois irmãos disputavam para comandar o império, Huascar e Atahuallpa.
Como Pizarro retornou em um mau momento teve que proceder com cautela, mas há anos os novos imperadores sabiam da presença dos espanhóis, Atauhuallpa pensava que Pizarro e seus companheiros eram mensageiros do deus Inti-viracocha que vieram “trazer vingança divina e bater os coveiros criminosos do império, os traidores do quito que renegaram as tradições e se entregaram a caciques mal saídos da barbárie” (CLAUDE, pag.22). Por este motivo as grandes bestas (cavalos) que os espanhóis montavam e as armas com barulho de trovão poderiam significar uma grande ameaça. Mas mesmo assim o Inca decidiu convidar Pizarro para um encontro onde ele decidiria se os espanhóis eram uma ameaça ou apenas invasores que deveriam ser esmagados pelo grandioso exército inca.
Os dois irmãos brigavam pelo trono, Huascar o filho legitimo do imperador e Atahualpa o bastardo, mas ambos tinham a mesma possibilidade de assumir o poder, visto que a nobreza era quem elegia o sucessor avaliando além da primogenitura seus méritos, capacidades e “favorecimentos que poderia trazer”. Enquanto o conflito não obtinha um vencedor o império ficou dividido em duas capitais, Quito sobre o poder de Atahualpa e Cusco sobre controle de Huascar.
Pizarro por sua vez estava a tramar como poderia se beneficiar da situação e quando foi convidado pelo poderoso Atahualpa para um encontro de negócios já tinha planejado como vencer a disputa. Os povos submetidos ao poder dos Incas estavam descontentes com os altos impostos cobrados para financiar a guerra e também com as mortes causadas na disputa ao trono, sem falar nos sacrifícios infantis que Atahualpa exigia para rituais de proteção a sua saúde, com tudo isto ocorrendo os espanhóis eram vistos pelos povos dominados como uma possível forma de libertação
 O encontro de Pizarro e Atahualpa foi muito amigável no primeiro momento, o Inca ofereceu chicha ao espanhol, uma bebida de milho fermentado servida em grandes jarras de ouro, Pizarro compartilhou com o Inca a Bíblia sagrada dizendo que dali vinha o poder que ele tinha e sua missão de “salvar o novo mundo”, mas Atahualpa a rejeitou fazendo descaso. No dia seguinte os espanhóis aprisionaram o Inca e aniquilaram seu exército, sob o pretexto de terem rejeitado a palavra divina. Atahualpa ficou preso por um tempo enquanto o mundo Inca entrava em profunda crise, só conseguiu negociar sua liberdade oferecendo um grande tesouro para Pizarro, uma sala repleta de ouro, os espanhóis aceitaram e libertaram o Inca visto que ele já não exercia mais o mesmo poder sobre o povo e seu exército estava dissipado.
Quanto a Huascar, este teve menos sorte, fora morto por seguidores de Atahualpa deixando o império Inca sem líder, logo os espanhóis arquitetaram um novo plano e colocaram um irmão de Atahualpa no trono, apenas para servir de “monarca-fantoche” seu nome era Manco Inca. Mas os espanhóis se enganaram ao achar que tinham o império inca na mão, várias guerras civis pipocaram na região e o “monarca-fantoche” reuniu exércitos para expulsarem os espanhóis dos Andes.
Em 1541 Pizarro e muitos outros capitães foram assassinados pelos rebeldes, para Pizzaro este foi o fim, morto pelas mãos das facções que se formaram na guerra civil que ele alimentara. Mas as guerras não acabaram com sua morte, pelo contrário, muitas guerras continuaram e os espanhóis tiveram que lutar constantemente com todas as gerações de Manco Inca até conseguirem controlar ou destruir tawuantinsuyo e o dividir em vices reinos para colonização, um processo longo e repleto de revoltas que caminharam por toda História andina até a chegada das independências no século XIX.
Tudo isso nos ajuda a compreender como foi a queda desse grandioso império e visualizar que não foi simplesmente uma destruição gerada por um punhado de homens brancos, muito menos que o império teve fim, pois ele continua vivo e enraizado em toda a cultura andina.


Grande Abraço
Equipe Marcelo Lambert

                                                                                                  Jonatan Tostes





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