sexta-feira, 29 de julho de 2016

Canibalismo e Sacrifícios Humanos, Uma Questão de Cultura.

Diversas vezes ouvimos histórias violentas e sanguinárias associadas aos povos indígenas, como se fossem bárbaros que desprezavam a vida ou que tinham prazer em fazer coisas abomináveis para nós, um exemplo disso é a prática do canibalismo. Grande parte das histórias sobre a barbárie atribuída ao indígena envolve os nativos americanos, histórias geralmente são carregadas de preconceitos e fazem muitas pessoas enxergarem a América pré-colombiana como um continente mergulhado na selvageria, mas será que devemos ter esse olhar sobre nossos nativos, ou ao vê-los assim estamos sendo parciais assim como seriam eles se nos conceituassem apenas pelo que viram no processo de conquista da América, como se fossemos dizimadores de povos.
 Sabemos é claro que nem todos os nativos praticavam o canibalismo, mas qual será a ligação deste ato com os habitantes originais de nosso continente?
Quando Colombo partiu rumo ao desconhecido possuía um imaginário repleto de seres e criaturas horripilantes que poderiam habitar o Oceano Atlântico e ao desembarcar nas Antilhas em 1492 se deparou com povos pacíficos, uma tribo chamada Arahuacos, por acreditar que tinha realizado o percurso planejado e descoberto uma nova rota para a Índia chamou equivocadamente os habitantes daquelas terras de “índios”, uma falha que repetimos até hoje. A ilha das Bahamas que os espanhóis desembarcaram estava repleta de Arahuacos, alguns andavam nus e outros com algumas penas para enfeitar o corpo, eles receberam os espanhóis com muito receio e curiosidade pena que após alguns anos poucos sobreviveram, grande parte da tribo foi dizimada pelas doenças que os espanhóis transmitiram neste primeiro contato.
     Por mais que os Arahuacos fossem pacíficos eles só conseguiram dominar aquela região após terem expulsado outras tribos do local, e além delas existiam muitas outras tentando se apossar daquele território, uma delas era conhecida como os “Caribes”, uma tribo hostil perita na arte da guerra, eles eram temidos por comerem seus inimigos e casarem com as mulheres da tribo vencida. Neste cenário que Colombo e seus navegantes desembarcaram e foram à procura de riquezas. No diário de Colombo é descrito que a distinção entre os Caribes e os Aharuacos era fácil, os primeiros são ferozes e os segundos submissos, logo da palavra “caribe” é que da origem ao nome “canibal”, uma tradução literal desse nome seria povo ousado ou audaz, esse nome se propagou e devido estes povos serem canibais, algo que deixava os espanhóis aterrorizados, acabou virando uma forma comum de rotular essa prática.
O canibalismo assombrava muito os colonizadores, pois era uma prática nada comum na Europa, no mundo grego existiam mitos e lendas que falavam desta prática, mas estar em um mundo desconhecido cercado por nativos que a realizavam constantemente era algo preocupante.  É muito difícil analisar qual era o verdadeiro papel do canibalismo naquele povo, com certeza não era apenas para provocar uma espécie de terrorismo, temos de levar em consideração questões religiosas, mas devido à falta de documentos e pesquisa dificilmente conseguiremos uma abordagem profunda sobre isto, uma teoria é que todo inimigo devorado agregava suas forças ao vencedor, ou seja, cometer o canibalismo era uma forma de conseguir mais poder, algo muito útil durante um processo de dominação.
Uma outra teoria que amplia a noção desse costume é o canibalismo como um processo ritualístico, dando origem ao termo antropofagismo, os antropófagos, traduzindo: aqueles que tem fome de homens, seriam os que cometem uma espécie de canibalismo com motivos mais específicos e não apenas para alimentação. Esse caso aparece aqui no Brasil com os índios Tupinambás e também os Tamoios, especialistas afirmam que eles realizavam o canibalismo com outra finalidade, para esses nativos os inimigos eram consumidos como uma forma de vingança, uma maneira de submete-los ao poder dos vencedores, mas sem o objetivo de fazer proveito biológico de sua carne, algo que seria entendido como antropofagia, uma forma de se vingar através de um ritual que envolvia a prática canibal. Observe a seguinte citação que confirma o fato:

“Não é que eles encontrem tantas delícias em comer dessa carne humana e que seu apetite sensual os leve a tais pratos. Por que eu me lembro de ter escutado deles mesmo que, após tê-la comido, eles algumas vezes são forçados a vomitá-la, seu estomago não sendo capaz de digeri-la... O Fazem para satisfazer a raiva, mais que diabólica, que tem de seus inimigos. ”  - D’ABBEVILLE, Claude.

Muitos especialistas estudam essa prática e possuem diversas abordagens sobre o assunto que aqui foi tratado de forma bem resumida, mas que é extremamente amplo e complexo pois se trata de uma cultura que deixou pouquíssimos vestígios ou fontes históricas que poderiam possibilitar sua total compreensão, uma boa indicação para compreender o assunto é a obra O Canibal de Frank Lestringant. Mas o objetivo do artigo é conseguir demostrar que as práticas, muitas vezes consideradas abomináveis, vão muito além de um simples ato de selvageria e revelam a cultura de um povo e doo nosso continente.
Outro exemplo que demoniza os povos indígenas são as práticas ritualísticas que envolvem sacrifício, geralmente pensamos que se trata de um ato bárbaro e totalmente cruel, mas se mergulharmos na cultura pré-colombiana talvez possamos tentar compreender o porquê uma cena dessas era realizada frequentemente no mundo Asteca e Maia.
Na América pré-colombiana, principalmente entre os Astecas e os Maias, o sacrifício humano era uma prática religiosa muito comum, eles acreditavam que os deuses se alimentavam dos homens, assim como os homens se alimentam dos animais e vegetais, por este motivo o sangue era algo precioso para os deuses e os rituais de sacrifício eram necessários para poderem viver em paz e obterem prosperidade.
Para conseguirmos entender como uma prática tão agressiva era algo comum devemos em primeiro lugar conhecer o conceito de morte para estas civilizações, no caso dos Maias a morte era algo muito importante, uma morte honrada concederia uma oportunidade de ressurreição e de gratificação divina, já uma morte por causas naturais ou acidentais não dariam estas recompensas. Os astecas tinham uma visão semelhante, entendiam a vida carnal como uma curta passagem diante da possibilidade de renascer pela morte, mas além disso, acreditavam que os sacrifícios deveriam estar presentes em todos os acontecimentos importantes como rituais, inaugurações (de cidades e de templos) e outros marcos, a morte era uma forma de agradar os deuses, alimentá-los para que eles abençoassem o novo feito.
  Se considerarmos estes fatores chegaremos mais próximos de compreender os sacrifícios que estas civilizações realizavam, outro fator importante é a questão do alimento divino, em vida nós ganhamos diversas coisas dos deuses e para que isto continue temos de dar algo em troca “sangue por sangue”, seguindo este pensamento muitos soberanos Maias e Astecas realizavam sangrias, perfurações corporais com o objetivo de retirar sangue do corpo e com ele alimentar os deuses, a população assistia os rituais e entendia que os soberanos se sacrificavam para que os deuses fornecessem fartas colheitas. Este ato acalmava a população e nutria a fé do povo, um dos motivos da queda de muitos governantes Maias foram os períodos de seca em que as colheitas não eram satisfatórias, a população acreditava que os soberanos não estavam agradando os deuses e isto acabava em revoltas populares.
  Olhar os pré-colombianos sem entender o motivo pelo qual eles realizavam os sacrifícios e identificá-los como uma civilização selvagem é um erro, devemos antes disto procurar entender os motivos que os levavam a realizar tais práticas, muitas coisas que fazemos atualmente com naturalidade podem vir a ser consideradas uma barbaridade no futuro, tudo vai depender das descobertas e da cultura que estiver vigente naquele contexto.
Quando os Maias pensavam na morte eles percebiam o quanto devem se superar em vida, a morte poderia chegar a qualquer momento e por este motivo tinham de estar preparados para ela, a cada dia temos uma oportunidade de vencer todas as coisas que nos impedem de se sentirmos realizados ou de nos superarmos enquanto seres humanos e pensar em nosso tempo de vida é estar atento e disposto para realizar estas transformações.
O sacrifício animal era uma prática religiosa muito utilizada antigamente, mas com o tempo algumas religiões pararam de praticá-la, tanto pela evolução das leis de proteção aos animais quanto pela própria filosofia da religião que se altera conforme os contextos históricos, logo nos tempos antigos e atualmente ele não deve ser visto como algo errado, apenas como algo que atendia, e atende, a determinadas necessidades culturais, isso ocorre constantemente na história, as vezes algumas práticas são abandonados ou modificadas de acordo cm o tempo em que vivemos.
A história nos possibilita analisar essas práticas de uma forma mais ampla, não apenas observa-las como um ato cruel, mas conseguir entender o vínculo cultural existente nelas e trabalhar essa questão em nossas vidas para que ela possibilite nossa evolução e emancipação pelo conhecimento.

Grande Abraço
Equipe Marcelo Lambert

                                                                                                                   Jonatan Tostes 


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