quarta-feira, 27 de julho de 2016

O Corpo e a Arte na América Antiga

“A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo.” 
― Vladimir Maiakovski

O ser humano utiliza um extenso repertório de símbolos para se expressar através de uma linguagem artística: vestimentas, tatuagens, pinturas, piercings e escarnificações são os exemplos mais comuns de métodos e formas utilizadas nesse processo. Atualmente muitas dessas práticas foram mantidas e demostram o quanto herdamos culturalmente traços culturais antigos, mas será que os significados são mantidos? Será que os motivos são os mesmos ou semelhantes?
Um exemplo desse processo são as tatuagens, essa arte tem um histórico milenar e até o momento não foi possível descobrir qual povo iniciou a prática, mas com certeza é possível interpretar o significado que deram a ela. A palavra tatuagem deriva do verbo “Ta tau” de origem samoana (As ilhas de Samoa situam-se no sul do Oceano Pacífico, entre o Havai e a Nova Zelândia), ela faz menção a técnica que era usada para penetrar a tinta na pele, para os moradores dessa ilha a tatuagem era como um totem, estabelecendo uma relação simbólica de proteção e também de afinidade com o desenho em questão que poderia identificar aquela pessoa perante os demais, unindo ela a um grupo ou distinguindo ela dos outros clãs. Era uma forma de identificação personalissíma ou grupal, normalmente o símbolo ficava em partes de fácil vizualização, no caso masculino era realizado nas costas, mas as vezes fugia da regra, no feminino por exemplo, geralmente atrás do joelho.
Por mais que a palavra seja de origem samoana, muitas outras culturas utilizaram em épocas remostas esse recurso, as mumuias do Egito já utilizavam tatuagens e nos Alpes Austríacos foi achado um homem da idade do bronze com 57 tatuagens, seu corpo estava preservado no gelo e a crença local dizia que os desenhos estavam associados a rituais de cura. Dessa forma vemos que os desenhos possuíam significados diferentes, mas uma função muito semelhante, criar através de um símbolo algo que existia apenas no campo da intenção, ou seja, materializar sentimentos e conceitos.
Outro costume curioso são as escarnificações, cicatrizes ritualisticas muito utilizada por povos indígenas para demostrar quem eram os mais bravos guerreiros ou para simboliozar a passagem para vida adulta. Novamente essas marcas possuiam um significado muito intímo e ligado ao grupo, normalmente pela ausência de outras maneiras de produzir uma diferenciação social, uma identidade que marcaria a pessoa em questão e possibilitaria que o mesmo fosse reconhecido perante os demais.
Uma prova disso são as perfurações, muito utilizadas pelas tribos nativas da América, os piercings e alargadores eram uma forma de demostrar ascensão e prestigio social. Algumas tribos Maias e Astecas faziam perfurações em rituais e deixavam o sangue escorrer pela terra, pois o mesmo alimentava os deuses segundo sua crença.
Os indígenas brasileiros retratam este assunto com a lenda de “Kamukuaká”, uma criatura divina que era muito famoso entre os nativos do Mato Grosso, de acordo com a lenda o Kamukuaká não possuía umbigo devido não ter sido gerado apenas ter vindo de um lugar desconhecido e para compensar este fato ele decidiu furar suas orelhas em uma grande festa.
A festa foi tão grandiosa que o sol ficou com inveja desta criatura, logo no meio da festa ele resolveu matá-la atirando-lhe flechas, mas como Kamukuaká era muito rápido ele desviou e as flechas furaram apenas suas orelhas, quando o povo viu a habilidade daquele ser ao se esquivar do próprio sol resolveram furar suas orelhas em homenagem a ele e até hoje os indígenas mato-grossenses realizam uma festa onde praticam uma cerimônia que lembra este episódio.
Com o tempo esses buracos começaram a ser preenchidos com joias e em pouco tempo os índios começaram a utilizar alargadores, é claro que o uso deles tinha um significado, na tribo Kayapó por exemplo, o Botoque (alargador colocado no lábio inferior) é uma forma de demostrar que a pessoa tem o dom da oratória e quando colocam um alargador na orelha é porque acreditam que os ouvidos se tornam mais receptivos com ele e logo a pessoa se tornará mais sabia.
Os incas também foram grandes utilizadores dos alargadores de orelha, seus alargadores eram inseridos apenas nas pessoas de grande prestigio social, por causa disto os espanhóis apelidaram os nativos superiores de “orejones” (orelhudos) devido ao tamanho das orelhas alargadas. Para os incas essa pratica possibilitaria a ampliação dos sentidos e a comunicação com o mundo sagrado.
Além destes costumes que algumas pessoas consideram mais agressivos também existiam formas de se expressar corporalmente sem envolver sangue, muitos povos nativos trabalhavam com pinturas corporais ou trajes coloridos para marcar rituais ou apenas criar alegorias para o cotidiano, a pintura de rena, por exemplo, já era praticada por mulheres a cerca de cinco mil anos atrás. Já as vestimentas são formas ainda mais sutis, porém não menos significativas, de diferenciação social e conexão com a espiritualidade, para os povos incas elas eram muito importantes, certa vez, Atahualpa, imperador Inca, ao ameaçar Pizarro, conquistador espanhol, pouco antes de ser levado para a prisão iria dizer com profundo ódio as seguintes palavras “Eu sei o que fizestes ao longo deste caminho. Tomastes as vestes dos templos, e eu não desancarei até que as devolva para mim! ”, estranho ouvir tal reclamação, visto que neste momento o mundo inca se encontrava em uma profunda guerra civil e os espanhóis estavam aprisionando o nobre Inca, as roupas deveriam ser a última coisa que um imperador se preocuparia, mas Atahualpa se referia as roupas sagradas do mundo Inca.
      Para os Incas as roupas tinham um valor fundamental, elas demonstravam a hierarquia social que o nobre ocupava, tendo o mesmo efeito das joias, ou seja, quanto mais nobre maior a complexidade da confecção de sua vestimenta, cores, formato e qualidade do tecido, os nobres usavam roupas chamadas “Cumbi”, elas eram feitas com fibras de camelídeos (Lhama, Alpaca, Guanaco ou Vicunha) por tecelões muito habilidosos. Em outras ocasiões as roupas tinham um valor sagrado, pois eram um objeto ritualístico, de acordo com a mudança da colheita ou estação do ano um tipo de roupa era usado para realizar o ritual de passagem de ciclo, de forma que existiam tecelões específicos para produzir a vestimenta de acordo com a ocasião ou ritual.  Isso pode ser constatado com a descoberta das múmias Incas em Paracas, elas estavam enroladas de mantos repletos de cores vivas e bordados zoomórficos, revelando a importância da vestimenta para os povos dos Andes, visto que os Incas herdaram esse costume das civilizações anteriores.
Tudo isso nos mostra como algumas praticas que consideramos novas e causam espanto para pessoas mais conservadoras são muito antigas em nosso mundo e faziam parte da cultura de diversos povos na antiguidade, a arte corporal é um costume sem fronteiras que vem sendo aprimorado e a cada dia gera mais adeptos que inovam seus conceitos dando novos valores a essa arte milenar. O Que realmente importa é que a pessoa esteja sincronizada com o tipo de arte escolhida e atrvés dela consiga atingir seus objetivos sejam artísticos ou espirituais, por este motivo vale utilizar a História para investigar as razões dos antigos em criar essas práticas e comparar com a atuliade para entendermos como funciona a evolução dessa rica forma de manifestação.
Grande Abraço
Equipe Marcelo Lambert

Jonatan Tostes

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