sábado, 23 de julho de 2016

O Papel da mulher no mundo Inca

Nossa América é famosa por possuir a maior floresta do mundo, a Amazonas, um fato curioso é que este nome foi dado pelo explorador espanhol Francisco de Orellana, ele se baseou em mitos gregos que falavam da existência de mulheres guerreiras que amputavam os próprios seios para serem mais rápidas em combate e no manejo do arco, por este motivo ganhavam o nome “Amazona” que em grego significa “Sem seios”, quando Francisco de Orellana viu as belas mulheres do amazonas e foi surpreendido por algumas que belas e habilidosas guerreiras, então decidiu batizar o lugar com este nome.
No entanto por mais que este explorador viu a fúria da mulher na Floresta Amazônica e em outras tribos e clãs espalhados pelo continente, o que ocorria com a mulher no restante da América do Sul, mais precisamente no maior império da América antiga não uma plena igualdade de gênero, mas persistia nas terras incas o machismo. Dados apontam para uma descrição de uma sociedade muito preconceituosa e pesquisadores demostram que os Incas não davam espaço para as mulheres atuarem como cidadãs, existem muitas lendas que demostram uma figura romântica e importante da mulher, mas a sociedade inca impunha a ela o papel de mantenedora do lar e responsável por gerar e cuidar dos filhos até que eles iniciassem seu treinamento militar.
As mulheres que possuíam sangue Inca eram mantidas como esposas do Imperador, o Inca tinha o costume de casar-se com suas irmãs, sobrinhas, e primas para manter o sangue puro, pois eles acreditavam que dois irmãos filhos do sol deram origem a civilização inca e para que a pureza do sangue divino fosse mantida eles faziam casamentos entre irmãos. Mesmo assim o Imperador possuía um grande harém onde colocava diversas mulheres de tribos conquistadas, geralmente as filhas dos caciques para garantir também um domínio sobre a raça que acabara de conquistar, uma espécie de poligamia estratégica. Aquelas que não eram utilizadas para serviços sexuais se dedicavam ao mundo espiritual realizando rituais, essas mulheres que viviam perto a nobreza eram chamadas de Mamaconas.
O Seguinte poema reflete um pequeno relato de aflição das jovens que se sentiam condenadas a uma vida sem sentido devido a opressão da cultura machista e do valor que davam a mulher na sociedade:
“Nasci de uma flor do campo
Como uma flor, fui cultivada em minha juventude
Atingi a idade máxima, envelheci
Agora vou murchar e morrer”
                                  (Poema de memória das mulheres dos Incas)
Esse relato, por mais que parcial e colhido de forma oral e depois transcrito na época da colonização, demostra um pouco do sentimento de jovens que fossem submetidas a esse processo, por mais que culturalmente muitas poderiam aceita-lo, havia rejeições.
A maior fonte que possuímos para tratar essa questão são relatos dos padres que colonizaram e catequizaram a região junto a alguns indícios materiais e contos como o demostrado acima, mas todos eles indicam que a mulher não ocupava uma posição social análoga a masculina e por mais que fosse respeitada não era uma sociedade igualitária. No entanto havia uma grande semelhança entre as classes mais baixas em relação as funções, no trabalho do campo ambos os sexos tinham grande semelhança e realizavam praticamente as mesmas funções, resguardado o período de gravidez e amamentação da mulher, já o ensino era destinado apenas a elite e de acordo com as funções que iriam exercer.
Uma crônica que demostra esses dados é a da princesa Quispe Sisa, ela vivia em Cajamarca e compunha o harém do imperador já que era meia-irmã do Atahualpa, mas com a invasão de Pizarro e a morte de Atahualpa a moça foi batizada pelos espanhóis e ganhou o nome de Dona Inés. Pizarro ficou apaixonado pela beleza da princesa decidiu fazer dela sua esposa, ela deu à luz a dois filhos Francisca Pizarro e Gonzalo Pizarro, mesmo assim como o espanhol estava em constante combate ele resolveu se livrar da princesa e a deu para um de seus servos chamado Ampuero, ele também admirava a beleza da dama e ficou muito feliz com sua nova esposa.
A tristeza da princesa não acabou por aí, as crônicas revelam que além dela ser considerada um objeto de posse ela erra muito maltratada pelo seu novo esposo e para se livrar deste infortuno procurou uma feitiçeira inca, a princesa pediu que a feiticeira realizasse um ritual que fizesse o seu marido parar de maltrata-la. Após algum tempo Quispe percebeu que o feitiço não fazia efeito então de alguma forma o marido percebeu a trama e castigou terrivelmente a princesa e a feiticeira. Quispe foi perdoada e teve que viver até os fins de seus dias sendo maltratada pelo esposo, mas a feiticeira não escapou da inquisição e teve seu corpo queimado em praça pública enquanto o esposo se tornou o maior “encomendero” da cidade possuindo grandes riquezas.
Observe um outro poema que revela a situação de uma jovem presa por adultério:
Cântico da donzela infiel, presa ao cadafalso*
Ó pai condor, agarra-me,
Irmão falcão, arrebata-me,
Anuncia-me à minha mãezinha.
Há já cinco dias
Que eu não como,
Que não bebo.
Pai, mensageiro,
Detentor dos sinais, mensageiro veloz,
Leva-me, leva a minha boca, o meu coraçãozinho,
Anuncia-me ao meu pai e à minha mãe.

Essas crônicas nos revelam um pouco sobre a real situação da mulher no mundo inca e no processo de conquista, muitas vezes acreditamos que a América era um cenário perfeito e algumas lendas nos fazem pensar que as civilizações antigas possuíam uma sociedade justa e igualitária, a verdade é que assim como as demais regiões do mundo o ser humano era falho e incapaz de construir uma visão harmônica com tudo que está ao seu redor.
Observar outras culturas e civilizações e ver sua relação com o mundo nos faz refletir como a humanidade se desenvolve de forma complexa, muitos problemas se repetem por todo o mundo como se estivéssemos em um linha evolutiva, enquanto em algumas civilizações parece que tudo ocorre de forma diferente, não que exista uma forma única de evolução, mas é importante pensar que o desenvolvimento para algo mais justo e igualitário só ocorrerá quando entendemos o que é a justiça e a igualdade que buscamos e para tanto o melhor caminho é a emancipação através do conhecimento, eis a importância de analisar e compreender as culturas que nos cercam, eis a importância da História.



Grande Abraço
Equipe Marcelo Lambert

Jonatan Tostes
                                                                                                                

(*Poema publicado por Huaman Poma de Ayala, século XVII- pós-colonial)

Nenhum comentário:

Postar um comentário