quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Chakana, a cruz andina


A cruz é um símbolo universal que possui tantos nomes e significados quanto nossa
diversificação cultural permitir, muitas vezes a mesma cruz tem significados distintos em culturas distintas e talvez o fator que explica a amplitude desse símbolo é sua simplicidade e associação com outros fatores universais como os pontos cardeais e o próprio sol. Em nossa cultura nomeamos de “Cruz” devido os romanos, pois a palavra cruz deriva de “crucius” que significa tortura em latim, pois os romanos utilizavam estacas em posições transversais para punir criminosos os amarrando ou pregando nelas, e como Jesus foi vítima desse terrível castigo o símbolo se propagou através dos tempos junto com o cristianismo se tornando mundialmente conhecido. Mas a cruz que iremos falar nesse artigo não tem uma ligação com a cultura cristã e com sacrifício, porém seu objetivo também é conectar o indivíduo ao sagrado o que torna o assunto fascinante.

  A “cruz” andina se chama Chakana, uma palavra composta, onde chaka significa ponte e Hanã mundo superior ou espiritual, ou ainda aquilo que está acima, dessa forma em uma tradução livre seria “A ponte entre o mundo material e o mundo espiritual”, um símbolo que demonstra a jornada do ser humano neste plano e em outros. Primeiro vamos analisar seus três níveis que possuem um significa muito complexo,  a parte superior se chama Hanã Pacha (o mundo superior, habitado por deuses), a intermediária Kay Pacha, (o mundo de nossa existência) e a inferior Ucu ou Urin Pacha (o mundo inferior habitado por espíritos, ancestrais e várias deidades que tem contato próximo com a Terra), dessa forma esse símbolo descreve os três planos que existem em nosso universo e ao mesmo tempo cada nível é associado a um animal que é o guardião e guia daquele estágio.
O Condor, a águia da  América do Sul, corresponde ao mundo superior, seu dever é guiar os seres humanos na busca pela ascensão, como é um animal que vive em regiões altas e possui um intimo contato com o sol era visto como uma criatura celestial, várias culturas associam as aves de rapina a esse dever seguindo essa linha de raciocínio. O Jaguar era o guardião da Terra, um majestoso animal capaz de ser rei nas florestas andinas e por este motivo detinha o poder sobre nosso plano terrestre. Por fim a serpente era a guardiã do mundo inferior, aquela que se rastejava e possuía segredos misteriosos do interior da Terra, todos esses animais não eram apenas fisicamente os guardiões e guias desses mundos, mas eram o tipo de energia que os andinos buscavam se conectar para obter um caminho para o sagrado.
Um exemplo disso estava ao centro da Chakana, onde existe um círculo em baixo relevo denominado “Axis” que significa que “O Xamã” aquele que é capaz de transitar pelo cósmico para outros níveis. Também representa a cidade de Cusco, o centro do Império Inca, conhecida como umbigo do mundo, local onde os percursores da civilização inca usariam como ponto de partida para construir um império, pois possuíam o conhecimento do deus Sol Int-Viracocha, logo o centro simboliza a possibilidade de entender o mundo e transforma-lo através do conhecimento da totalidade do símbolo. Logo o Xamã era capaz de se conectar com esses três animais e compreender o Mundo em sua totalidade.
Existiam outras formas de ler a Chakana, dessa vez pelas quatro pontas que completavam um círculo, existe a possibilidade de aplicar esse símbolo a muitas funções, cada uma das quatro pontas era associada a diversos fatores de acordo com um contexto, poderiam demostrar as quatro estações e cada um dos seus degraus a os meses que a compõe e dessa forma serviria como um calendário agrícola, como os povos andinos eram hábeis agricultores e conseguiam produzir diversas técnicas de plantio esse calendário era crucial para calcular etapas de descanso da terra e épocas de plantio e colheita. Outra utilidade era a astronomia, esse símbolo era talhado em vários templos e servia como forma de estudar e mapear constelações, uma das que a associação é evidente é a Cruzeiro do Sul, existem estudos e momentos específicos do ano que essa associação conseguia ser feita e determinados movimentos planetários podiam ser previstos com base em estudos realizados a partir da cruz, a pirâmide de Akapana por exemplo demostra essa possibilidade, no topo da pirâmide existia uma cruz andina que era utilizada em rituais e observações astronômicas, pesquisas indicam que o posicionamento da pirâmide condiz com eventos e fenômenos astronômicos dessa e de outras eras.
A cruz andina também era associada aos quatro elementos e utilizada em vários rituais, lembrando que a sociedade andina estava o tempo todo vinculada com o sagrado e por este motivo era impossível separar a política da religião e da ciência. Esses são alguns exemplos de como esse símbolo estava enraizado na cultura andina e o quão complexo é entende-lo. Tudo isso demostra como os símbolos são complexos e ao mesmo tempo necessários para realizar uma conexão com um mundo que não entendemos seja ele interno ou externo.

No dia 18/10 faremos uma palestra no Adamastor Guarulhos onde abordaremos mais sobre o tema e sobre a arquitetura Andina, acesse o link abaixo e participe!

http://semcitec.guarulhos.sp.gov.br/


 Grande Abraço
Jonatan tostes


Equipe Marcelo Lambert
www.marcelolambert.com

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