quarta-feira, 5 de abril de 2017

O SAGRADO PARA A CIVILIZAÇÃO MAIA - POR MARCELO LAMBERT

O mundo sagrado dos Maias

              Farei uma reflexão sobre o sagrado dentro do universo Maia. Assunto de extrema relevância para essa civilização. Mas é claro que podemos pensar essa questão em nossa sociedade, afinal estamos vivendo um tempo onde o sagrado vem se transformando em profano quase todos os dias, pois infelizmente assistimos absurdos sociais constantemente em nosso cotidiano.

Vista da cidade de Palenque - Chiapas - México

            A Civilização Maia era pautada pelo sagrado, sendo assim, todas as manifestações humanas eram materializadas por esse viés. Podemos citar exemplos palpáveis na arquitetura, astronomia, arte, matemática, escrita etc., como também a religião que caminhava lado a lado com todos os conhecimentos desenvolvidos pelos Maias e todas essas ações, de forma objetiva, buscavam a perfeição.
            No caso específico da arquitetura a busca pelo sagrado se traduzia em suas construções, o requinte a beleza e a exatidão de cálculos observadas nas pirâmides, templos e edifícios chegam a ser impressionantes. Podemos afirmar que os Maias através dessas construções buscavam constantemente se assemelhar aos deuses, lembrando que eles eram politeístas.
E como esse processo se dava? Bem, no imaginário desse povo a busca do sagrado era a busca constante pela evolução de seu espírito, sendo assim, os seus feitos em vida eram determinantes na morte, lembrando que para os Maias o conceito de morte é muito diferente do mundo em que vivemos hoje, ou seja, a morte não existia, pois o tempo para eles era uma coisa única, determinando a vida como um processo cíclico e eventos contínuos que nunca se esgotavam. Em tese a morte só existiria se em vida os feitos não fossem dignos do sagrado.
            Portanto a arquitetura não se resumia apenas a um conjunto de construções, ou simplesmente pedras sobre pedras, é certo dizer que as edificações possuíam “vida”, por que era idealizada nessas obras toda uma abstração religiosa, que era fundamental para a dinâmica humana dessa civilização.
            Penso ser de fundamental importância citar a arte nesse contexto, afinal o Maias eram exímios artistas, não só na pintura como na escultura, todas as edificações eram cuidadosamente trabalhadas, transformado-as em obras primas, inclusive muitas dessas preservadas até hoje nas floretas da América Central e na Península do Yucatán, nos mostrando a intensidade e a sensibilidade artística desse povo, sendo o mais impressionante, que esse processo se dava em função de uma busca do sagrado através da arquitetura e arte apresentada nessas edificações, vale lembrar que a quantidade de ornamentos como máscaras, jóias, estátuas, enfim, eram infindáveis nas cidades-estado da Civilização Maia.
            Outro aspecto que seria impossível eu deixar de lado é o grandioso conhecimento astronômico dessa civilização, e claro a perfeição matemática, inclusive podendo afirmar que eles desenvolveram a mais complexa e elaborada estrutura escrita e matemática das Américas. E para o momento histórico mundial sendo talvez as mais “desenvolvidas” para o seu tempo, vale ressaltar que os Maias atingiram o seu ápice por volta de 250 d.C. até 900 d.C., mas com isso vem a pergunta. Qual a relação dessas áreas do conhecimento com a questão do sagrado? Apesar de parecer complexo é muito mais simples do que se imagina. Vamos refletir, temos diante de nós uma civilização que busca constantemente o sagrado e nada mais justo que buscá-lo no cosmos.
            Mais do que fazer observações astronômicas os Maias buscavam o sentido das suas realizações no cosmos, construindo calendários, fazendo profecias, justificando dogmas religiosos, mas principalmente organizado toda a sociedade partindo dessa relação com o Universo, pois, para eles, nós seres humanos e todas as coisas desse planeta em que estamos inseridos, fazem parte de um único corpo que para ser saudável tinha, necessariamente, que possuir uma circularidade tal, que se fosse profanada iria comprometer a dinâmica humana e planetária.

Ao fundo pirâmide das inscrições - Palenque - Chiapas - México

            A mesma abstração era constante na matemática e escrita, pois, os registros não tinham apenas aspectos administrativos como também uma forma real de se aproximar de seus deuses, materializando assim, um caminho legítimo para uma vida concreta e inteira sobre a luz de suas crenças.
            Os Maias também enxergavam no tempo uma importante manifestação do sagrado, em função disso a necessidade constante de marcação de seus eventos, como também pensar o tempo como uma unidade determinante na lógica religiosa, mais que isso, o tempo como normatizador real de todos os acontecimentos e ações de toda sociedade Maia.
            Ainda sobre o tempo gostaria de citar um pequeno trecho do livro “Civilização Maia – História e Pensamento” de minha autoria que diz o seguinte:

“Para o Mundo Maia, o tempo era um elemento vivo, extremamente dinâmico e de uma profunda complexidade, tendo inclusive vontade própria em alguns momentos. Ao mesmo tempo ele era equilibrado e desequilibrado, gerando grandes eventos em nossas vidas, e, o mais importante, ele se repetia a todo instante, possibilitando sempre o retorno dos deuses. Através da observação e leitura do cosmos os Maias viam o tempo passar, determinando os acontecimentos humanos, tornando cada dia um grande desafio a ser vivido e superado, buscando a cada segundo o seu clímax.”

Como vimos na citação é evidente a grandiosa importância que esse povo dava para o tempo e fundamentalmente o quanto eles eram fascinados pela sua compreensão.
Acredito ser pertinente destacar neste artigo, para uma compreensão mais objetiva e clara da busca do sagrado para essa civilização, utilizando o sentido filosófico de Kukulkán (serpente emplumada) uma das principais deidades do panteão Maia e conhecida também como Quetzalcoatl no caso Asteca do historiador e filósofo Enrique Peregalli, em seu livro “A América que os europeus encontraram”

Qual é a mensagem de Quetzalcoatl? Sua história é a busca incansável da realização humana. Quetzalcoatl não é um deus que outorga favores. Quetzalcoatl é um fim, o fim do aperfeiçoamento interior, é um homem que se transforma em deus após conseguir libertar-se do condicionamento da matéria. Ao transformar-se, mostra aos demais homens o caminho dessa transfiguração.
Seu pensamento considera imprescindível escapar da matéria. Como? Libertando as faculdades criadoras do homem e não destrutivas. A libertação se efetua sobre a natureza, considerada objeto do trabalho humano, trabalho criativo que a transforma em cerâmicas, esculturas, murais etc.”

Pirâmide do Adivinho - Uxmal - México 

Observem que através da citação acima sobre esse deus Maia, ficam mais evidentes as razões do modo de vida desse povo se caracterizar por essa busca permanente pela perfeição, afinal,  a vida era regulada por essa busca incessante da vitória do determinismo da materialidade e a superação dessa premissa era conquistar o seu lado criativo e transformador, principalmente chegar próximo de seus deuses.

Cidade de Uxmal - México

Tenho o costume de dizer que os Maias nos deixaram vários legados e acredito piamente que essa busca pelo sagrado como rotina humana dessa civilização se caracteriza como uma dessas heranças. Desta forma eu insisto para que façamos uma reflexão sobre nossa sociedade atual, trazendo aqui algumas perguntas.
Como enxergamos o outro? Alguém que devemos disputar, concorrer ou superar? Ou como deve ser: seres humanos e, como tal, sagrados?
Como estamos tratando o meio ambiente? O nosso planeta?
Estamos colocando o capital acima do humano?
E nossas crianças, manifestação objetiva do sagrado, como nós estamos tratando e educando?
Creio possuir uma infinidade de questionamento que poderia citar, mas talvez possa resumir em poucas palavras a questão posta.

“A busca pelo sagrado é incansavelmente lutar por um mundo justo para todos, onde as oportunidades não sejam exclusividade de uma minoria que teima em acreditar que o mundo é assim mesmo, afinal é cômodo, isso é literalmente transformar o sagrado em profano. Vamos movimentar o tempo no sentido da emancipação humana e da equidade social.”

Muita LUZ a todos, até o próximo artigo,

Do Amigo,

MARCELO LAMBERT

4 comentários:

  1. Excelente texto com uma profunda reflexão de cunho verdadeiramente humano. Parabéns Prof., Palestrante e Historiador Marcelo Lambert.

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  2. Agradeço o cometário. Fico feliz que tenha gostado.
    Abraços.

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  3. SilGames, fico feliz que gostou. Os Maias realmente foram incríveis.
    Abraços

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